1 de junho 2017

Radar Blog

A cronologia do Caos

 Apenas cinco dias após as comemorações de um ano de governo, ocasião em que toda a comitiva Temer se reuniu para ouvir do chefe do Executivo o saldo positivo dos primeiros 365 dias, o Planalto e grande parte da população foram atingidos por uma variação pouco agradável da “mãe de todas as bombas” em tempos de Lava-jato, o petardo de alcunha ‘delação premiada’.

Se, em geral, as quartas-feiras nos parecem chatas e enfadonhas, definitivamente essa não seria a classificação adequada para a quarta-feira 17 de maio. A famigerada melodia do plantão Global trouxe notícia da notícia: o jornal O Globo acabara de publicar matéria sobre a delação de executivo da JBS que atribuía ao Presidente da República declaração que daria anuência para a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, além de concordar com uma série de crimes que o delator declarou ter cometido.

Pronto, aquela ponte já não apontava para o futuro. Ao menos não o futuro que Temer ambicionava. O caos político e econômico estava instalado: as ações das principais empresas nacionais e da Ibovespa já registravam queda; em paralelo, o dólar alcançava pico de 10% de majoração; o primeiro dos atuais 13 pedidos de impeachment foi registrado; protestos eram registrados ao redor do país.

A quinta-feira não deixou a desejar, para quem gosta de fortes emoções, é claro. Logo pela manhã os telejornais mostravam, em tempo real, operações da Polícia Federal nas casas do também citado Senador Aécio Neves. O Supremo Tribunal Federal decidiu pela homologação da delação bomba e pelo afastamento dos parlamentares envolvidos (Aécio Neves e Rodrigo Rocha Loures) de seus respectivos cargos no Legislativo.

O escândalo, claro, refletiu na composição da base governista. A primeira dissidência registrada foi do PSB. O PSDB ameaçou, titubeou, resolveu esperar. Temer, por sua vez, e a despeito das expectativas, resolveu pronunciar-se e afirmar, categoricamente, que não renunciaria. Pouco depois, o áudio da conversa entre o Presidente e o empresário foi divulgado e, por algum motivo que foge à definição de bom senso, achou-se que não era tão grave assim.

Agenda de discussão das reformas foi interrompida no Congresso Nacional e, em seguida, retomada. Pretendia-se transmitir um sentimento de normalidade nos trabalhos, tanto no Legislativo quanto no Executivo. O tiro saiu pela culatra. A manifestação ocorrida no último dia 24 pode não ter sido relevante em números se comparada às anteriores, mas resultou no efeito planejado pelos que estavam dispostos a destruir patrimônio, desarranjou também o clima “tá tudo bem, tá tudo certo” que o Planalto buscava imprimir. Ora, o Presidente decretou, no meio da tarde, durante o protesto, a utilização das Forças Armadas para garantir a ordem: não é déjà vu, é o caos, devidamente instalado.

O jeito agora, para Temer e seus quase sempre aliados, é prorrogar, tanto quanto possível, o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral; contar com o apoio do presidente da Câmara dos Deputados para não dar encaminhamento aos pedidos de impeachment que já incluem petição da OAB; e esperar que Rodrigo Rocha Loures mostre-se comprometido em assumir sua culpa e a de Temer.

Allana Rodrigues